O que ela mais queria era atenção, porque era mulher e porque era só.
Mas mais que atenção o que ela desejava era o prazer, porque tinha a mente e o corpo à espera.
Mas mais que o prazer o que ela ansiava era o amor; porque era vazia e porque o amor era quem a completaria dando-lhe a atenção e o prazer que só o amor pode dar.O amor é o assombro da atenção, razão pra dizer olá pra quem não tem razão em si mesmo.
E o desejo se instalou como se instala uma poltrona numa sala escura: seu corpo era a sala.
Desejo que ela não alcançava, porque a distância mantinha sua sensibilidade aprisionada num vácuo.
Desejo do que se quer sem precisar, porque ela tinha necessidades sem saber: de saber.
Mas o que é necessário para que se ame ainda não a atingia. E o amor que se instala assim tão sorrateiramente, se instalaria nela e em todo seu ser, mesmo que ela não se desse conta disso.
O que se pode permitir a si mesmo, ela se permitia, porque mesmo sem se perceber, a gente acaba aceitando algumas coisas apenas para nos ver livres de pensamentos involuntários, aqueles que nos incomodam e não deixam espaço para outros desejos.
Mas ela tinha desejos, muitos; ela tinha vontade e, ela tinha liberdade. Ela tinha a liberdade dos recém-nascidos – liberdade dependente e vigiada.
Mas por quem?, talvez ela mesma?, talvez por um plano Divino?
Ela tinha desejos, e saiu pela porta da frente usando chinelos e um sorriso espetado e imóvel - um sorriso de desculpas.
Desculpava-se consigo mesma, desculpava-se com os passantes que sorriam de volta.
“Não!, não se incomodem comigo, por favor!”, repetia para todos que encontrava no caminho.
E quando atingiu a distância que não se volta mais, parou! Descansou o sorriso como se fosse um soldado cansado da marcha e pôs-se a olhar a distância que havia percorrido. Sentiu-se sintetizada naquelas pegadas que a seguiam desde seu primeiro passo além da porta.
Talvez a distância fosse o tamanho da sua fé.
Talvez o caminho fosse a direção de sua paixão.
Talvez o cansaço fosse a voz de sua angústia.
Talvez o sorriso fosse a resposta de sua crença.
Talvez nada fizesse sentido.
Porque sabemos que às vezes não há algo que explique uma experiência, que explique o valor ou a substância das coisas: seu peso, sua massa, sua presença – às vezes ameaçadora, às vezes apaziguadora – em nossas vidas.
E mais do que ela, eu também quero atenção, porque sou disperso;
e além de atenção também quero o prazer, porque estou aberto;
e além da atenção e do prazer, quero o amor, porque sou incondicional em meu próprio estado, porque também sou meu próprio personagem em fuga, porque todos desejam o que só ele pode nos dar, porque é feito e criado em assombro e mudez.
É tudo isso o que quero e desejo alcançar: instalar-me em condições necessárias para a minha própria vitória.
Acomodar-me em mim como se acomoda um beijo em outra boca.
Como se salga o mar com as lágrimas dos inconformados.
E talvez eu saia na mesma estrada usando apenas meu anel e um par de momentos vividos.
E o que se pode permitir a si mesmo eu me permitirei, porque mesmo que saibamos daquilo que nos move, ainda há o mistério que nos leva.
E como eu e ela, o que você quer é atenção, porque é certo que não deseja o vazio;
e mais que atenção o que você pede é prazer, porque a prosa não lhe dá herdeiros;
e além de atenção e prazer, o que você busca é o amor, porque:
nele se fortalece o desejo por todo o resto;
se alcança o enredo de nossas vidas;
elimina-se a precariedade de nossos medos;
anula-se a dor de nossas agonias e desenha-se a verdadeira liberdade: livre de arbítrios e de fatalismos.
Mas, talvez o amor seja apenas algo químico, produto de um místico, calçado pelo mistério dos séculos, deitado em vidro quente, ao sabor da infância dos homens, derramado no mundo por um deus descuidado.

SAC