ENIGMA | Alexandre Costa

Porque havia um motivo, e porque um motivo determina alguma coisa, havia “esse” motor causante, aristotélico, que movia os dois. E tudo teve início porque havia a solidão e havia o amor também: a solidão e o amor criaram o motivo. O amor se manifestara de uma forma inesperada e acidental, quase inocente. Para os dois aconteceu que a soma das distâncias ao contrário de afastá-los os aproximou, não porque eles manifestaram esse desejo, mas porque tudo na vida faz parte de um processo, e os fatos psíquicos que atuaram na conduta dos dois os uniu assim: longe do alcance moral do que praticaram.

A escassez daquilo que se tem sem se ter adquirido por compra ou troca era a razão agora que movia Jade para longe de Jorge -  e teria sido apenas ele e mais ninguém o motivo do amor que nascera há muito tempo e que agora se quebrara vítima das expectativas dela. O amor é assim, cheio de esperas, mas aquilo que a gente espera do amor nem sempre é aquilo que o amor quer nos dar. Ela criara dentro de si o desejo de uma vida “que virá”, e talvez até tivesse uma esperança fundada em supostos direitos adquiridos ao longo dos anos, convertidos agora em possibilidades e promessas que não se concretizaram. Talvez isso tivesse tornado tudo que viria a seguir em “verdade”, ou talvez seja eu quem enxergue além do que se pode ver.
Porque havia esse motivo, e porque nada podia fazer mais sentido do que expatriar-se, ela tenha se desligado da percepção de tristeza e mágoa que a vida lhe sujeitava a experimentar. Mas querer – agora – não fazia muito sentido, porque querer é vontade e intenção, é ter de admitir ou acreditar que algo pode mudar com o nosso consentimento – no caso com o consentimento dela. E para não se explicar ela decidiu que aquele encontro casual seria apenas isso – por hora.
Encontraram-se por puro acaso no Bistro Du 17ème em Paris, na 108 Avenue Villiers, aliás, não se encontraram, trombaram um no outro, quase um acidente. Podiam mesmo decidir-se ir embora e nunca mais tornar a encontrar um ao outro, mas o desejo de estar em certo lugar ou em certa companhia, ou as duas coisas juntas os aliciou – porque o motivo já existia e nada podia evitar o que já estava determinado. Lembro-me que ela disse “…não acredito no determinismo!” Mas os fenômenos às vezes se unem de modo tão rigoroso que, em certo momento, tudo está completamente ligado: o que se passou ou o que existe – condicionando o que virá.

Podiam decidir-se ir, mas preferiram ficar. Porque por mais que não percebessem já havia a cumplicidade da escassez que enchia os dois, e foi por culpa dos dois que não desviaram o olhar, não evitaram o “olá!”, que sempre vem acompanhado da curiosidade pelo timbre da voz do outro, dos movimentos do corpo, do diálogo escondido em cada piscar, por debaixo das pálpebras. Sim, era tudo isso que eles não podiam ver que os unia naquela hora extraordinária. E como se fosse ali a primeira vez que se encontravam, descobriram que era preciso ficar. Ficar e perceber em cada um a vontade desnuda; e a vontade é desejo de representar mentalmente o que pode ou não ser praticado em obediência a um impulso ou a motivos ditados pela razão. Ponderar era preciso. E o acaso que era o “mais novo momento” para ambos virou rotina. Um caminho conhecido e já percorrido pelos dois era o Le Parc Monceau. Encontravam-se quase todos os dias em frente ao grande portão dourado da entrada, paravam na ponte sobre o lago, e o reflexo dos dois na água era o reflexo de suas vidas – colocadas ali por ambos – em capítulos precisos e cheios de uma esperança retroativa. Nessa hora não entendiam como a vida funcionava: o determinismo teimosamente incoerente com a convicção de cada um era algo que já estava escrito e que, ao mesmo tempo, ambos podiam modificar, e podiam de certa forma perceber isso em cada um e ao redor. Não sei o que dizer ou pensar, talvez não se possa perceber se existe uma “vontade” ou um “motor” que alimenta a engrenagem do amor, talvez seja esse o grande mistério, talvez seja esse o verdadeiro enigma, algo impenetrável à razão humana. De qualquer maneira os dois estavam ali – talvez fantoches de uma vontade além da compreensão, talvez espíritos livres do segredo que o criador escolheu não compartilhar com a criação.
A cada amanhecer a vida podia lhes dar precaução e cautela; amor e desejo; sexo e fibras no café. A cada momento dúvida e certeza; frio e quente; preto e branco – coisas sem sentido fazendo sentido; rotina sem o humor natural da surpresa. E depois de um bom tempo todo o sobressalto do acontecimento inesperado se converte em hábito novamente e lança o mundo na vida ordinária de sempre. E assim, Jade espera que sua vida se converta em uma nova vida a cada dia, e que os fenômenos de sua existência se tornem simples representações e não coisas em si.

Por um bom tempo é agradável para ela andar pelo parque e conversar, livrar-se do que deseja e apenas esperar “o que virá”, sem correr o risco do arrependimento, porque aceita as circunstâncias que a guiam, porque encontrara em Otto o que perdera em Jorge. Na ponta dos pés, ela apóia os braços em seus ombros e estica todo o corpo para alcançar seu rosto severo. Um sorriso discreto desenha-se no rosto do homem, ela o beija num gesto automático e espera que a troca seja justa. Não existe uma canção no ar, nem promessas de terceiros. Existe uma espécie de decepção, desagrado, não com o que virá, mas com o presente estático diante da realidade dos dois. É tudo tão normal, natural; e às vezes até obscena a face da rotina íntima dos desejos de ambos. Talvez seja esse o verdadeiro determinismo prático da vida. Jade se pergunta, eu me pergunto se vale a pena esperar por essa espera por uma novidade. Quem sabe um dia desses os dois se encaixam e entre um olhar e outro a química faça a sua parte, a espera se torne ato e o que era meio se torne fim?

Entre um dia e outro, entre intervalos ansiosos do seu coração, Jade vive a normalidade dos momentos vazios que preenchem sua rotina. Talvez não se tenha mais nada para dizer, talvez não se possa querer mais nada além do que já foi ganho, talvez dizer a verdade uma única vez na vida fosse a chave para sair do beco sem saída em que estava… Ela se acostumara a não evitar e a não escolher a si mesma. Jade podia ser o que há de melhor para se ser, e olhando para trás podia ver seu rastro – as pegadas –, o caminho que a trouxe até este momento.
E porque houve um tempo em que tudo estava muito distante, não havia motivo. Mas a sucessão das coisas que nos dá a noção de tempo foi ficando para trás, transformando o presente em passado e criando dentro de Jade a sensação de um futuro incerto; e a impressão causada pelo desconhecido a fez recuar. Seu olhar era vago, mesmo quando segurava as mãos de Otto.
E entre eles, muito mais que a falta de distância entre os lábios, era a falta do que esperar um do outro. Cada um a sua maneira desejava o que o outro “poderia ser”, e porque esse desejo é causa indeterminada há algo maior que ela deve considerar, por enquanto!